O voluntariado no centro das ações de reparação: lições de Maceió

Uma colaboração entre o UNOPS e o UNV

Este artigo de opinião foi redigido conjuntamente por Fabrizio Feliciani, Diretor Regional da Oficina das Nações Unidas de Serviços para Projetos (UNOPS) na América Latina e no Caribe, e Lita Paparoni, Gerente Regional do Programa de Voluntários das Nações Unidas (UNV) na América Latina e no Caribe.

Forçadas a fugir

Em todo o mundo, 1 em cada 67 pessoas é obrigada a deixar sua casa, a maioria das vezes devido a conflitos, violência ou mudança climática, de acordo com o relatório 2025 do ACNUR, Agência da ONU para Refugiados. Maceió, no nordeste do Brasil, sente as profundas repercussões sociais dos deslocamentos forçados e é hoje o maior desastre socioambiental urbano em curso no país. A partir de 2019, cerca de 60.000 pessoas de cinco bairros tiveram que deixar suas casas por causa das enormes cavidades subterrâneas abertas após décadas de extração de sal-gema. O solo foi comprometido, danificando edifícios, ruas e meios de vida. O que se perdeu não foi apenas a infraestrutura física, mas também as raízes, memórias e laços que mantinham as comunidades unidas.

Há espaço para uma reparação inclusiva?

Acreditamos que sim, combinando a experiência técnica do UNOPS com o voluntariado — espinha dorsal do programa Nosso Chão, Nossa História. Ao fortalecer a atuação do Ministério Público Federal em Alagoas e empoderar comunidades, o programa ajuda a identificar os danos morais coletivos decorrentes do desastre e apoia a reparação em Maceió.

No centro desse esforço, está o Comitê Gestor dos Danos Extrapatrimoniais (CGDE), um órgão de caráter voluntário composto por membros da sociedade civil e de instituições públicas, que decide quais projetos de reparação implementar e como os recursos são geridos. Essa gestão local garante que as comunidades afetadas não apenas recebam projetos, mas participem ativamente das decisões sobre o que é feito e como é feito o Programa, que conta com o apoio operacional do UNOPS.

Uma das ações mais marcantes foi o lançamento de uma campanha que deu aos moradores um canal direto para expressar suas necessidades e compartilhar quais foram os danos coletivos surgidos a partir do desastre. A iniciativa uniu os avanços da tecnologia com a confiança gerada pelo voluntariado. Por meio de um canal de WhatsApp, qualquer pessoa atingida pôde compartilhar sua história, enquanto voluntários visitaram os bairros, explicaram a campanha e apoiaram as comunidades no acesso ao canal de comunicação.

Voluntárias e Voluntários da ONU em Maceió

Para manter viva a escuta social, o projeto contou com 56 Voluntários e Voluntárias da ONU das próprias comunidades, que ofereceram habilidades diversas e profundo conhecimento local. Além de mobilizar a população, ajudaram as pessoas que enfrentam barreiras como analfabetismo, a falta de acesso à internet ou dificuldades com a ferramenta, garantindo que todos pudessem participar plenamente, e colaborando para o fortalecimento de vínculos.

Com o Programa Nosso Chão, Nossa História, coordenado pelo Comitê, UNOPS e UNV mostram o que a colaboração entre agências da ONU pode alcançar.

A tecnologia conecta pessoas, mas são os Voluntários e Voluntárias da ONU locais que as aproximam. É assim que os esforços de recuperação se transformam.

Do comitê voluntário que define prioridades do Programa aos Voluntários da ONU que atuam no terreno, o voluntariado impulsiona cada parte desse processo de cuidado com as comunidades. É como uma bússola que guia os caminhos para a reparação. Nosso compromisso é levar esse espírito a toda a América Latina e o Caribe.

Nosso Chão, Nossa História

O Programa é financiado por uma ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal em Alagoas, que condenou a empresa de mineração Braskem a compensar os danos extrapatrimoniais decorrentes das atividades de mineração em Maceió. Um total de 30 milhões de dólares serão investidos ao longo de quatro anos, por meio de editais para projetos implementados por organizações sociais locais. O programa é gerenciado e operado pelo UNOPS, sob a orientação do Comitê Gestor dos Danos Extrapatrimoniais (um grupo formado por representantes da sociedade civil).

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