Artigo: o Carnaval e a reparação em Maceió

Presidente do Comitê Gestor dos Danos Extrapatrimoniais, Dilma de Carvalho, escreve sobre a festa momesca e sua relação com a reparação na capital alagoana

Por Dilma de Carvalho

Território coletivo e imaterial onde identidades se cruzam e se manifestam, o Carnaval é a festa mais popular do nosso país. O ano começa depois dele. É neste espaço de festa e celebração que a alegria é, sobretudo, instrumento político de resistência e reparação.

Ao olharmos para a história recente de Maceió, vemos que as consequências decorrentes do desastre socioambiental causado pela mineração da Braskem — nos bairros do Bebedouro, Pinheiro, Mutange, Bom Parto e Farol — não atingem apenas os imóveis, mas dificultam uma cidade inteira de acessar o que cada território tem de mais bonito: a felicidade em compartilhar uma festa diversa, democrática e geradora de pertencimento.

É importante destacar que as folias de Momo são espaços dedicados à subversão e quebra de correntes coloniais, uma vez que muito da cultura carnavalesca tem raízes nas comunidades consideradas marginalizadas pelos processos socio-históricos e pelas elites. Reparar e reconhecer essas heranças/origens ajuda a ampliar a visibilidade e o respeito a essas contribuições, resgatando narrativas que muitas vezes foram silenciadas e violentadas: como as festas históricas na Praça Lucena Maranhão, no Bebedouro; o Bloco Sururu da Lama, no Bom Parto; a folia com os vizinhos, no Mutange; a resistência do Maluco Beleza, no Farol e o “passo” do Bloco dos Amigos, no Pinheiro.

Parte dessas tradições desfilava e/ou desfila pelas ruas e avenidas dos bairros, que não são apenas endereços, mas locais de simbiose da vida cotidiana. O professor Luiz Antonio Simas, historiador e escritor que se dedica ao estudo das tradições ancestrais brasileiras, define que nesses lugares são construídas e reconstruídas as coletividades e sociabilidades de cada sujeito. “A festa nunca foi, de forma nenhuma, um componente dissociado à luta”.

Bloco Maluco Beleza integrou as atividades do Rota de RExistência, projeto de reparação do edital Calendário Cultural do Programa Nosso Chão, Nossa História (Foto: Nosso Chão, Nossa História)

Em 2026, a partir do apoio do Programa Nosso Chão, Nossa História, parte dessas manifestações atingidas vem sendo fortalecida via projetos de reparação, por meio do Edital Calendário Cultural, Memória e Resistência. A iniciativa é gerida pelo grupo que tenho a honra e responsabilidade de liderar: o Comitê Gestor dos Danos Extrapatrimoniais (CGDE). Além de mim, outros 16 membros voluntários, entre pessoas atingidas e representantes de instituições sociais, fazem parte da idealização dos editais que estão apoiando na costura do tecido social rasgado pelo deslocamento forçado causado pela mineradora.

É neste horizonte que nós, do CGDE, reconhecemos que os pilares da reparação também estão nas raízes históricas do Carnaval, como fruto cultural do sentido comunitário, da capacidade criativa e do resgate à coletividade e à alegria. São justamente esses elementos que nos tornam resilientes e nos mantêm firmes e de pé na luta por justiça social, por reparação.

Enquanto estamos juntando os retalhos e costurando à mão os caminhos da reparação aos danos invisíveis, os brincantes e carnavalescos podem fazer suas máscaras e fantasias, reencontrar vizinhos, ocupar as ruas, pular o frevo e, assim, fortalecer a própria identidade e a memória, construindo suas próprias histórias e, a partir disso, o nosso chão.

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