Janeiro Branco: saúde mental no Nosso Chão, Nossa História é temática estruturante na reparação

Nove projetos de reparação atuam diretamente com a temática; Programa entende a área como linha transversal nas ações  

Em 2019, a vida de Roberta Santos, atualmente com 40 anos, mudou para sempre com o deslocamento forçado causado pelas atividades da mineração no solo de Maceió no bairro em que residiu durante 15 anos.

O que é deslocamento forçado?
Deslocamento forçado, também chamado de migração forçada ou realocação forçada, é um movimento involuntário ou forçado de uma pessoa ou pessoas para longe de sua casa ou região de origem.

Além de deixar para trás seu lar, que foi lugar de encontros  da família, aniversários, comemorações de inúmeras conquistas e ponto de referência para parentes que viviam no interior de Alagoas, Roberta teve que lidar com a perda dos referenciais comunitários do bairro, como as relações de afeto e vínculos que mantinha com os vizinhos, os pequenos negócios e até mesmo com a saudade do pôr do sol da Laguna Mundaú, do alto da Avenida Francisco Freire Ribeiro, no Pinheiro.

Seis anos após a saída de sua antiga casa, os danos à saúde mental e o sentimento de perda com os vínculos comunitários faziam parte do seu dia a dia. Recomeçar e tentar olhar para a frente foi possível com a ajuda do projeto de reparação Sankofa, desenvolvido pela Escola Livre Cuidar com a Fundação de Ensino, Extensão e Pesquisa de Alagoas (Fepesa), parceira implementadora do Programa Nosso Chão, Nossa História.

“É uma temática que até então não estava sendo abordada. Tudo se voltava muito mais aos acertos financeiros. E o restante dos danos não haviam sido trabalhados. O curso foi uma forma de ressignificar o que aconteceu, de dar um novo destino a minha raiva e revolta. A sensibilidade e o respeito de tocar nesse assunto com a gente foi o grande diferencial, todos eram muito profissionais”, conta Santos.

Por meio de uma abordagem que integra escuta, acolhimento, fortalecimento das redes de apoio e promoção do bem-estar coletivo, o Sankofa desenvolveu dinâmicas para revigorar os laços comunitários e a saúde mental, tendo como pilar o cuidado coletivo para a reparação dos danos morais coletivos causados pelo desastre.

“Ampliei meu olhar para a coletividade. É como se eu conseguisse dar um novo sentido para essa tragédia que é dolorosa e precisa ser sempre lembrada. Então, eu acredito muito nisso também a partir do projeto, para que a gente tenha força a partir do coletivo”, argumenta a ex-moradora do Pinheiro.

Roberta Santos, ex-moradora do bairro do Pinheiro (Foto: UNOPS)

É como se eu conseguisse dar um novo sentido para essa tragédia que é dolorosa e precisa ser sempre lembrada”.

O Projeto Sankofa é fruto de um dos três editais de saúde mental já lançados pelo Programa Nosso Chão, Nossa História nos últimos dois anos. O primeiro deles, publicado em 2024, foi o edital Saúde Mental Comunitária, cujo objetivo foi promover o bem-estar da população atingida e reparar os impactos à saúde mental comunitária por meio da execução de projetos voltados à criação de grupos de convivência e acolhimento, ao fortalecimento de redes de apoio comunitário e à formação em apoio psicossocial.

A segunda iniciativa foi o edital Pesquisa em Saúde Mental Comunitária, voltado ao fomento da produção de conhecimento sobre saúde mental comunitária e apoio psicossocial, por meio da concessão de bolsas de pesquisa dedicadas à temática.

Já o terceiro edital, também intitulado Saúde Mental Comunitária, teve como objetivo selecionar organizações para desenvolver projetos de grupos de acolhimento e convivência comunitária destinados a pessoas com e sem deficiência, famílias atípicas atingidas pelo desastre socioambiental em Maceió, pessoas LGBTQIA+, além de crianças e adolescentes. Todos esses grupos são considerados prioritários para as ações de reparação no Programa.

Ao todo, nove projetos de reparação foram selecionados nos editais do Programa, que prioriza o apoio psicossocial como área estruturante da reparação. Os projetos se dedicam ao resgate da convivência e fortalecimento das redes de apoio, fortalecimento de vínculos e laços sociais e promoção da mobilização e participação da comunidade. Confira todos os projetos aqui

Para a psicóloga Débora Araújo, assistente de projetos do Escritório das Nações Unidas de Serviços para Projetos (UNOPS) e dedicada ao acompanhamento das iniciativas de reparação na área de saúde mental, o tema demanda atenção prioritária.

“Atuar no monitoramento dos projetos de reparação em saúde mental é ter a atenção voltada aos efeitos do desastre que não podemos mensurar, e compreender a importância de olhá-los com cuidado, responsabilidade e expertise não só técnica, mas humana. É evidente o aprendizado não só das organizações implementadoras, mas o fortalecimento das pessoas nessa rede que se sustenta no cuidado coletivo “, diz Araújo.

Conheça os projetos:

Projeto Parceiro implementador
Diagnóstico sobre saúde mental da população atingida | Saúde Mental, Nossa Prioridade Vertex
Grupos de convivência e apoio psicossocial comunitário por meio de ações socioculturais, esportivas e de lazer | Transbordar entre fios e afetos Instituto Jarede Viana
Redes de Apoio Comunitário | Saúde Mental Comunitária: redes de apoio comunitário Fundepes
Formação em Apoio Psicossocial Comunitário | Sankofa Fepesa
Grupos de acolhimento e convivência comunitária para pessoas
com e sem deficiência e famílias atípicas atingidas pelo desastre
socioambiental em Maceió | Reparar é lembrar, cuidar e transformar
Vale do Sol
Grupos de convivência e apoio psicossocial comunitário para crianças e adolescentes | Cuidando da vida: Resgatando Alegria Associação da Criança e do Adolescente da Chã de Bebedouro
Redes de apoio psicossocial para mulheres, pessoas idosas e pessoas LGBTQI+ | Redes de vida e Espaço Viver com Dignidade Associação Comunitária dos Moradores de Bebedouro e Codebentes
Pesquisa em Saúde Mental Comunitária | NÓS: Rede de Pesquisas em Saúde Mental Comunitária e Desastre Socioambiental Fundepes

De acordo com a presidente do Comitê Gestor de Danos Extrapatrimoniais (CGDE) Dilma de Carvalho, todas as ações, diretrizes e olhares do Nosso Chão levam em consideração a temática e são pensadas de maneira transversal, a fim de trazer elementos que fortaleçam as pessoas que foram atingidas.

“Um dos norteadores do Programa é a saúde mental. Todos os nossos projetos têm esse recorte, também. Seja um projeto de cultura, seja em um projeto de geração de renda, por exemplo. As atividades são desenhadas a partir da escuta ativa das pessoas atingidas, garantindo que elas sejam as protagonistas da própria reparação que já está acontecendo”, pontua De Carvalho.

Parceria inédita e ampliação do olhar

Integrando as ações de saúde mental comunitária do Programa, em agosto de 2025, por meio de uma parceria com o Conselho Federal de Psicologia (CFP), foi lançada uma nota técnica e uma cartilha com diretrizes sobre saúde mental e apoio psicossocial comunitário no contexto da reparação de danos extrapatrimoniais. Os documentos têm como objetivo subsidiar a atuação de psicólogas(os) em Organizações da Sociedade Civil (OSCs), coletivos e lideranças locais na reparação de danos morais coletivos. Acesse-os na íntegra:cartilha e nota técnica.

A consultora em saúde mental do Programa, Sandra de Assis, ressalta que o desastre em Maceió impactou profundamente a saúde mental da população, ao provocar perdas, o afastamento dos territórios, o rompimento de vínculos e mudanças abruptas na vida cotidiana. Ela também destaca a campanha do CRP, que reforça a importância de a saúde mental ser considerada ao longo de todo o ano.

“É importante tratar a transversalidade da saúde mental nas ações do Programa porque tudo o que o desastre impacta, como a vida, as relações, o território e o sentimento de pertencimento, afeta diretamente o bem-estar emocional das pessoas”, pontua Assis.

Projetos de reparação de danos extrapatrimoniais são iniciativas planejadas para reparar os impactos sofridos por pessoas ou comunidades em decorrência de desastres socioambientais.

Esses projetos vão além da compensação financeira, buscando reconstruir e fortalecer dimensões como memória, identidade, vínculos comunitários, cultura, modos de vida e pertencimento ao território, promovendo justiça, dignidade e resiliência social.

Para conferir todos as linhas temáticas do Programa e os detalhes de cada projeto, acesse abaixo:

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