Durante o mês de março, Programa Nosso Chão, Nossa História relembrará o desastre socioambiental sob a perspectiva da reparação
Da Rua Cônego Costa, no Bebedouro, em Maceió, Ana Paula Silva, hoje com 51 anos, cresceu ao som ritmado do sino da Paróquia Santo Antônio de Pádua, cuja presença marcava a passagem das horas e os contornos da rotina. Dali, também observava o ir e vir dos alunos da centenária Escola Bom Conselho no caminho apressado rumo às aulas. Na Praça Lucena Maranhão, deixava-se encantar pelas luzes e pelas bandeirolas penduradas que, ao longo do ano, anunciavam as festas do tradicional bairro.
Esse cenário começou a mudar no início da tarde de 3 de março de 2018, quando um tremor de terra, ocasionado pelas atividades de mineração de sal-gema da Braskem ao longo de décadas na capital alagoana, trouxe um alerta sobre a instabilidade do solo nos bairros Bebedouro, Bom Parto, Pinheiro, Mutange e Farol.
De lá para cá, cerca de 60 mil pessoas tiveram que deixar para trás não apenas as casas que abrigavam suas histórias, mas também os vínculos que davam sentido ao cotidiano. Ficaram para trás os encontros nas igrejas, nos terreiros e em outros espaços de fé, as conversas ao entardecer, os jogos nos campos de futebol e as reuniões nos centros comunitários. Fragmentos de uma vida coletiva que, de forma abrupta, foi interrompida e dispersa.

“Meu relacionamento no bairro acontecia nos grupos e pastorais da Igreja Santo Antônio. Quando tudo começou, até demorei a sair da minha casa, porque foram momentos muito bons ao longo de três décadas. Eu lembro bem quando tudo aconteceu: estava com meus familiares e percebi quando o chão tremeu demais. Na época, me perguntei: que estranho, como assim Maceió tem tremor?”, recorda Ana Paula Silva.
São oito anos de histórias atravessadas pela luta, pela resistência e pela incansável busca por reparação e justiça social. Uma jornada que não se limita às perdas materiais, mas que alcança dimensões mais profundas e silenciosas, aquelas que não se podem ver, embora sejam sentidas todos os dias: os danos morais coletivos, inscritos na memória, nos afetos em comunidade e no pertencimento interrompido.
Para marcar a data e ampliar a visibilidade sobre o desastre e sobre as ações de reparação conduzidas pelo Programa Nosso Chão, Nossa História, foi criada a campanha “Para Sempre, Nosso Chão”. Ao longo do mês de março, os canais oficiais do Programa (site, Instagram, Facebook e WhatsApp) publicarão conteúdos em alusão ao dia do tremor de terra que transformou a vida de milhares de pessoas na capital alagoana. A mobilização contará ainda com o apoio da rede de parceiros implementadores dos projetos de reparação do Nosso Chão. Além das publicações digitais, também serão realizados eventos com as pessoas destinatárias das iniciativas.

De acordo com Dilma de Carvalho, presidente do Comitê Gestor de Danos Extrapatrimoniais, a campanha “Para Sempre, Nosso Chão” cumpre um papel essencial ao manter viva a memória do desastre e reafirmar o marco da luta por reparação e justiça social das pessoas e das comunidades dos bairros atingidos.
“É importante destacar que, ao relembrarmos a data, ampliamos a visibilidade para o desastre socioambiental que ainda está em curso. As pessoas sofrem com a saudade do bairro, das conversas com os vizinhos na porta de casa, das festas na rua. São laços construídos ao longo de décadas e que não podem ser desfeitos de uma hora para outra. Por isso, o lema “Memória, Resistência e Reparação” se torna um princípio norteador para uma luta que ainda não acabou”, argumenta Carvalho.
O gerente do Escritório das Nações Unidas de Serviços para Projetos (UNOPS) no Programa, Bernardo Bahia, destaca o trabalho que vem sendo realizado, desde 2024, pelo organismo da ONU a partir das definições do CGDE.
“Entendemos o quanto o que estamos fazendo em Maceió é importante não apenas para a memória dos bairros, mas também para a reconstrução de um futuro mais resiliente, com justiça social e reparação, inclusive para as gerações que virão. A campanha representa, nesse sentido, o compromisso contínuo com a memória, a reparação e os territórios e a coletividade atingidos”, comenta Bahia.

Para conferir a campanha, basta acessar o Instagram do Programa (@nossochao.maceio).
Sobre o Programa
O Programa Nosso Chão, Nossa História é resultado de uma ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal em Alagoas (MPF/AL), que responsabilizou a Braskem pela reparação dos danos morais coletivos causados pelo desastre socioambiental da mineração em Maceió.
As atividades e os projetos do Programa são definidos pelo Comitê Gestor dos Danos Extrapatrimoniais (CGDE), grupo voluntário formado por pessoas atingidas e representantes de instituições públicas. A operacionalização das ações é realizada pelo Escritório das Nações Unidas de Serviços para Projetos (UNOPS). Está prevista a aplicação de R$150 milhões ao longo de quatro anos, por meio da implementação de projetos executados por organizações da sociedade civil, voltados à reparação dos danos morais coletivos.